tudo é permitido
o Michel Foucault, lá pelas tantas, diz que a psicoterapia e a psicanálise são tributárias das práticas cristãs da confissão.
no confessionário, você conta seus segredos e pecados ao padre, e aquilo fica entre vocês dois e uma terceira figura: Deus.
Deus, o grande Outro por excelência, é quem te perdoa de facto, o padre age apenas por procuração divina.
Deus, também, é quem sustenta não só essa prática, mas a vida de um fiel como um todo: o sistema moral, a possibilidade de perdão, a existência, a linguagem, tudo.
Deus não age somente no momento da confissão, para um cristão, ele olha cada ato, sabe de tudo.
Ele é um pressuposto.
na psicanálise, não existe esse terceiro termo — mas o neurótico obsessivo ou histérico precisa que ele exista.
afinal, o que sustenta este meu discurso, e aquele do analista?
ver-se como responsável pela própria capacidade de significar, sua própria significância, é um baita fardo — melhor que algum Outro dê conta disso.
perceber que não existe esse Outro comandando o seu discurso e, na prática, nem o seu desejo pode ser até um momento em que o neurótico desiste da análise.
não deixa de ser um rompimento traumático, afinal, sem Deus, tudo é permitido.
e se tudo é permitido, por que eu não ajo de acordo com o meu próprio desejo?

